quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Israel, Strauss e a fofice de Zubin mehta

A Orquestra Filarmônica de Israel tem uma história interessante que eu até então desconhecia: Foi fundada em pleno regime nazista, pra socorrer os músicos judeus da Europa central que tinham sido afastados de suas orquestras por, vocês sabem, Adolf Hitler e a turminha nacional-socialista. Um violinista judeu-polonês, Bronislaw Huberman, propôs que imigrassem para a Palestina, formassem um novo ensemble (só se tornou Filarmônica de Israel em 1948 com, óbvio, a fundação de Israel) e lá mesmo em Tel-Aviv, estreassem. Assim o fizeram 75 músicos, com o concerto de estréia regido por ninguém menos do que Arturo Toscanini (que por acaso também já tinha escapado do fascismo na Itália). Isso foi em 26 de dezembro de 1936.

Pois bem, fui vê-los tocar ontem à noite na Sala São Paulo, regidos por ninguém menos do que Zubin Mehta. Uma orquestra de judeus (majoritariamente, ao menos) cujo diretor musical é um indiano. Gee, now *that's* cool.

No programa dos dois concertos (e um ensaio aberto na segunda de manhã, que também fui assistir) aqui no Brasil, estavam a 6ª e 7ª sinfonias de Beethoven, mais três poemas sinfônicos de Strauss - o Richard Strauss austríaco, não confundir com Johann e os Strauss (nome de banda?) alemães, das valsas. Por desaviso e um tanto de distração, não tentei conseguir ingressos para o concerto com Beethoven, mas é óbvio que aquela sala lotou. Dizer "Beethoven" já é suficiente para que tropas de estudantes invadam o estacionamento em busca dos ingressos promocionais de 10 reais da Sociedade de Cultura Artística - porque os ingressos normais já foram comprados ou fazem parte das assinaturas de todos os velhinhos fofos e madames de echarpe que povoam a tão querida Sala SP. E de forma alguma isso é ruim, antes que me acusem de estar denunciando a burguesia paulistana ou alguma coisa assim. Eu é que não cometo tais indelicadezas com todas as senhoras bonitinhas de brinco de pressão - e espero que todas estejam lá também quando for eu numa das estantes do naipe das madeiras.

Mas o concerto, o concerto. Como disse, a distraída aqui não foi no dia do Beethoven e se esqueceu completamente do Strauss. Ou seja: imaginei que os dois dias seriam do Ludwig Van. Não poderia estar mais errada e fiquei sabendo logo na fila (de duas horas) pra conseguir o ingresso promocional, junto a companheiros-estudantes-de-música e outras gentes munidas de carteira de estudante e menos de 30 anos que lá se encontravam. Sem problemas, though. Queria continuar pondo em prática meu plano de ouvir todas as sinfonias com orquestras famosas (ano passado foi a 9ª), mas uma das coisas mais legais de se assistir concertos é ouvir pelo menos alguma coisa que você não conhece ainda. Ainda mais quando se trata de música do fim do classicismo pra frente, com todas as mudanças e surpresas dinâmicas, harmônicas, dramáticas e por aí vai. Então, fiquei bem feliz e satisfeita quando consegui o ingresso, já que mesmo pra ouvir R. Strauss a fila estava bem grandinha.

O programa tinha três poemas sinfônicos: o primeiro, talvez o mais famoso dos três, é Don Juan e pelo que parece tinha a ver com a vida de Strauss no momento em que compôs. Tirem as próprias conclusões (heh heh). O segundo é baseado num Robin Hood do folclore medieval germânico e se chama Till Eulenspiegels lustige Streiche, ou "As alegres travessuras de Till Eulenspiegel". O legal dos poemas sinfônicos é que quem gosta de ficar enxergando historinhas nas músicas, como dois amigos da faculdade com quem dividi camarote (montaram praticamente um filme épico, pelo que parece), pode fazê-lo sem possíveis censuras dos mais xiitas - afinal é música programática, é pra ser historinha mesmo, ora. Eu mesma fiquei imaginando, no começo da peça, o Eulenspiegel escondido, se preparando pra surpreender alguém, depois um monte de lutas e confusões e é divertidíssimo. Depois, o intervalo, o usual cafezinho que um amigo estudante de regência sempre toma, a usual passada de olhos pela Sala pra ver se tem algum lugar vazio melhor do que o nosso, nos últimos camarotes; não, não tem lugar melhor, eu estou perfeitamente feliz mesmo debruçada na beirada pra conseguir ver a orquestra; o sinal simpático que começa com um intervalo de quarta e vamos lá, segundo round.

Merece parágrafo próprio, o terceiro poema sinfônico. Ein Heldenleben, "Uma vida de herói", Strauss compôs pelo jeito falando de sua própria vida, sem mostrar modéstia alguma - o homem até cita a si próprio na penúltima seção do poema, chamada "As obras de paz do herói": aparecem várias, várias passagens de outras obras, dele como Assim falou Zaratustra, Morte e transfiguração, e o próprio Don Juan. Muito divertido. Resolvi brincar de não ler o programa até o final da peça e imaginar comigo mesma qual parte seria qual, na vida do herói. Pois deu pra acertar bastante. A parte sobre os inimigos, assim como a do campo de batalha, são perfeitamente explicativas, a primeira cheia de dissonâncias malucas e linhas melódicas esquisitas, a segunda com uma massa sonora em algumas partes tão grandiosa e violenta que você fica querendo se esconder atrás da cadeira, achando que o exército inimigo está logo ali. E eu não sou das mais impressionáveis, juro.

Da seção sobre a amada do herói eu só consegui perceber o mais óbvio mesmo, que é o tema amoroso tocado pela orquestra toda, mas depois li que os solos de violino são o principal e fez muito sentido. Mas o que gostei de verdade foi das transições entre cada seção, bem perceptíveis, mas ainda assim não bestamente óbvias. No final dessa parte, um dos temas da amada se entrelaça com um mais macabro, que remete aos inimigos. Parece uma despedida - ele não quer, quer ficar com ela, mas tem de ir lutar. E nem precisa entender de música pra perceber isso, é só estar atento. A confirmação é que logo depois vem o som grandioso e assustador da batalha. Esta termina com o tema de apresentação do herói, o primeiro de todos, que é legal demais e significa que os traseiros iminigos foram impiedosamente chutados. Vejam aí esse principal, com a Filarmônica de Berlim e Sir Simon Rattle na regência:



Os inimigos entram com a flauta, sorrateiramente e com uma risadinha de quem vai fazer maldade, mais ou menos nos 4:25. A luta vai acontecendo de uma forma sombria, mas o herói logo vence. A companheira (Des Helden Gefährtin), eu acho, aparece subitamente com o violino, logo depois da vitória, nos 7:54. Notem que isso é achismo meu da hora do concerto, misturado com o texto do programa, que também fala um monte de coisas. Eu recomendaria que vocês todos, ó multidão de pessoas que lêem este blog, vissem as 5 partes desse vídeo que coloquei aí, vale muito a pena.
O resto da seção "amorosa" da coisa está no segundo vídeo - em que, notem, pedaços do tema do herói, em tutti pela orquestra, são entrelaçados com o violino solo que representa a moçoila, dando a idéia de (bom, a gente imagina o que está acontecendo lá, né?). Depois vem o campo de batalha, que segundo o comentarista do programa faz a tempestade da 6ª sinfonia de Beethoven parecer "pouco mais que um chuvisco". Ah, vejam, vejam! Está no terceiro vídeo (aos 1:43, a flauta-inimigo aparece de novo pra acabar com a festa dos pombinhos):




Mas vou parar com a "visita guiada" pela peça de Strauss e só dizer que o fim, o final disso, meu Deus, é uma coisa linda. É um daqueles finais que você sabe que é final, sabe que está acabando, e ainda assim a cada mudança de dinâmica fica sem conseguir respirar, se perguntando quando exatamente vai ser. Sei que a platéia, me included, aplaudiu e gritou bravos e uhus por minutos. Pedimos um bis, o Mehta voltou ao palco e anunciou em um português fofíssimo "Mozart, o casamento de Fígaro". Tocaram. Aplaudimos de novo, mas dessa vez várias pessoas já estavam indo embora, afinal eram onze da noite. Aí é que aconteceu a coisa mais legal: Zubin Mehta voltou ao palco, anunciou por livre e espontânea vontade "Strauss" e pimba!, começou a reger de novo! Uma dança do (agora sim) Johann Strauss, a coisa mais divertida e feliz do universo, com todos os metais meio fanfarra, a percussão... Aquele homem sabe como terminar um concerto. Não deu outra: no fim do acorde final já tinha gente gritando e aplaudindo loucamente. Saí de lá feliz da vida, e acho que o resto da platéia também - não há quem resista a um concerto terminado desse jeito. Acho que o Zubin gostou da nossa empolgação, pra resolver dar um bis assim, por vontade própria. É uma das coisas que ainda me fazem gostar do Brasil.

6 comentários:

Cami disse...

"plano de ouvir todas as sinfonias com orquestras famosas" nhjasidhiaosdhu isso sim é um plano original!
Ah eu nunca assisti nada assim... quando eu morei na alemanha quando era criança eu assistia várias óperas e uma vez assisti uma orquestra alemã (não faço a menor idéia de qual). Mas pelo menos eu sempre vou assistir a Orquestra Sinfônica Brasileira de graça 8D da última vez ele tocaram Rachmaninoff, foi lindo *___*

Xuxi disse...

Muito boa sua descrição comentada do concerto.
Concordo em, digamos, todos os pontos com você, Zubin sabe muito bem o que fazer para terminar um concerto.
Fer, só esquecer de citar a corrida épica até o camarote ímpar vazio! =D

Arthur disse...

Infelizmente só posso comentar da forma, estrutura e criatividade de descrever um concerto, afinal, não é muito a minha alçada.

Talvez seja hábito comum entre os seus, mas não entre os meus. HAHA.

De qualquer forma, sem puxa-saquice, keep up the good work =]

Rafael da Silva disse...

UHauhuhahua, boa a descrição do poema.. Não tenho essa imaginação uahuhaha.

Pra dar certo isso pra mim tem que me contar que é um poema sinfônico, E ter algo muito óbvio, tipo algo como pintura tonal (é assim que se escreve?). Otherwise, só outra música legal hahaha.

Que já não é pouca coisa.

Fernanda disse...

Ju, SIM! Esqueci de citar nossa corrida cinematográfica pelos corredores. Rafa, eu tinha algumas informações sobre a peça antes de ouvir - poucas, mas tinha. Só sabia que era um poema sinfônico e que se chamava Heldenleben. Sempre precisa de algo, ou é uma sorte absurda acertar, embora cenas como a da batalha sejam bem óbvias.

E acho que vou me dirigir a vocês como "multidão de pessoas que lêem este blog" mais vezes. Pareceu funcionar! :^)

Nicolau disse...

Oi Fernanda. Gente, mas eu fico encantado com vocês meninas que sabem tantas coisas. Se eu conseguir vencer meu complexo de inferioridade, juro que tentarei comentar outras vezes.

Beijos

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