sábado, 3 de outubro de 2009

Este blog está virando diário de concertos

Ontem assisti ao Concerto para percussão e orquestra de James McMillan. Eu não conhecia o compositor e nunca tinha visto um concerto pra percussão. A solista, Evelyn Glennie, é incrivelmente virtuosa, expressiva ao extremo e... Surda! Uma graça, quando aplaudíamos, fazia gestos como quem diz que está sentindo as vibrações do som. Foi um concerto daqueles que te deixam, nos fortes, duro na cadeira; nos pianos, sem conseguir produzir o mínimo ruído que seja - engolir, se ajeitar, nada, nada. Depois do intervalo, a OSESP tocou a Bachiana nº4 do Villa-Lobos, velha conhecida, e o Mandarim Maravilhoso do Bartók. Eu tinha ido animadíssima pra ver esse último, mas confesso que depois do concerto do McMillan, tudo perdeu a graça. O primeiro movimento da Bachiana, o segundo que é aquela melodia de "ô mana deixa eu ir...", tão bonitos, mas não fazia mais sentido. Nem o Bartók, com todas as tensões e dissonâncias e coisas que parecem Stravinsky, parecia ter tanto impacto quanto o McMillan, cujo concerto, vi agora, se chama "Veni, veni, Emmanuel".

Me deixou sem fôlego; me lembrou que embora os picaretas estejam por todos os lados, é possível fazer música contemporânea compreensível e significativa para o público (e não exija que você saiba quais fórmulas matemáticas foram usadas pra montar o ritmo)... E ainda por cima tem tema cristão! Ô McMillan, assim eu morro! Lendo, agora, vi que é sobre o Advento. Sobre a esperança da salvação, em meio a lutas e aflições do mundo - sobre a proclamação de que um messias viria e traria libertação. Faz muito sentido, já que a peça toda, é cheia de dissonâncias, tensões, fortissimos, estruturas rítmicas e melódicas complexas... E bem no final, inesperadamente, a solista vai para trás da orquestra; se torna visível apenas pela sua sombra, projetada por um holofote, e toca sinos enquanto os músicos todos sacodem sininhos pequenos. A calmaria após a tempestade, o amanhecer depois de uma noite cheia de pesadelos, é o que se vê e o que se imagina. Mas o McMillan diz mais: At the very end of the piece the music takes a liturgical detour from Advent to Easter - right into the Gloria of the Easter Vigil in fact – as if the proclamation of liberation finds embodiment in the Risen Christ.

Céus, esse final. É a coisa mais bonita que eu vi em tempos - queria que todos pudessem estar lá pra ver. A luz amarela do holofote, a pausa expressiva antes do fim, separando a tensão da calmaria... Aquela pausa sozinha é mais musical do que qualquer peça inteira que queira dizer que silêncio também é música. Depois, a seqüência melódica tão familiar, de sino de igreja... Impactante, tanto pela música em si quanto pelo significado teológico, que fez com que me atingisse mais profundamente ainda. É, música contemporânea, você está infestada de chatos de galocha, mas quando aparece um James McMillan que te faz brilhar, a coisa é ofuscante. Mais ainda se o brilho principal é Cristo.



(Como diz o título, este blog está virando diário de concertos, mas depois desse eu não consegui evitar... Isso porque me segurei pra não ficar tagarelando sobre como a Nathalie Stutzmann cantou Der Musensohn no bis semana passada, bem no dia em que eu estava morrendo de vontade de ouvir Der Musensohn e blablablá...)

2 comentários:

batsiq disse...

Olha, Fer, se isso serve de incentivo, leigos como eu estão aprendendo muito por aqui. =^)

Fernanda disse...

Na verdade, Dani, esse é o melhor dos incentivos! Fico feliz em saber, obrigada! :^D

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