segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Liberal Education

Se eu fosse americana, em algum ponto da minha vida iria para uma School ou College of Liberal Arts, como o Thomas More. Descobri o site ontem, e ganhei mais uma razão pra resmungar sobre o Brasil ocasionalmente: a ausência de uma faculdade de Artes Liberais. A ausência, aliás, de qualquer tipo de educação liberal, que é uma educação cujo objetivo não é a produção de "cidadãos bem-informados" ou "profissionais capacitados para enfrentar o mercado de trabalho", mas sim o cultivo, desenvolvimento e formação integral do homem. Estudar e saber coisas que transcendem a profissão; que independentemente dela, continuam fazendo parte de quem se é. Conhecimento como fim, e não como meio. Acho que foi isso que eu sempre quis - e depois de um ano criando mais e mais dúvidas quanto à idéia de educação que é difundida por aí nas universidades, acho que consegui enxergar mais ou menos a idéia de educação que eu tenho; a que serve para mim e, sendo assim, a única com a qual eu posso trabalhar.

Uma das coisas nas quais andei pensando no fim do ano passado: qual é, afinal, o proveito de se tentar ensinar música pra absolutamente todo mundo? Qual o proveito de se tentar ensinar qualquer coisa pra alguém que não está de todo interessado? Um dos trabalhos de um professor é fazer o possível pra despertar o interesse, é claro, mas é improvável que todos se interessem - pra falar a verdade eu acho que improvável que a maioria se interesse. Aqui se faz necessário um esclarecimento: também no fim do ano passado, acabei descobrindo e confirmando claramente que eu não quero ensinar qualquer tipo de música. Não tenho objeções a quem o faz (pelo menos não objeções que possam ser sustentadas fora do gosto pessoal), mas eu não quero trabalhar com funk carioca numa sala de aula. Trabalhar o aspecto social da música tampouco é meu interesse. Nem me ater à cultura popular. Não que seja contra, mas simplesmente não vejo por que me ater a o que os alunos já conhecem, em vez de apresentá-los a diferentes culturas de diferentes épocas e locais. E partindo daí, eu sei que nem todos terão interesse em conhecer todas essas coisas, todas essas coisas que são tão diferentes do que se vive e se experimenta diretamente. Nem todo mundo se interessa em ampliar o próprio conhecimento sem um fim prático, material, e a essas pessoas não aponto o dedo ou culpo - cada um tem sua vocação, seus interesses, oras bolas. Mas só passo a saber mais ainda que também não acredito em educação obrigatória para todos, em educação de quem não a quer. Oportunidade de educação para todos, isso sim me parece bom e realista. Concluo portanto que não vejo proveito em ensinar música a absolutamente todo mundo, e menos ainda a música que eu quero ensinar.

Não quero ser um professor de literatura que se limita a Dan Brown ao invés de mostrar Tolstoi; não quero ser uma professora de música que se limita a analisar a Lady Gaga ao invés de mostrar o que há para ser descoberto em Bach. Mas então quer dizer que Tolstoi é melhor do que Dan Brown, e Lady Gaga melhor do que Bach?. Pois eu digo que é, e provavelmente você que está lendo concorda e ainda pensa que diabo de pergunta babaca é essa. Mas as pessoas realmente a fazem, e a fazem de forma sincera, tamanho é o relativismo que reina saltitante e serelepe por aí. Posso enumerar as situações em que ouvi que, para uma adolescente de treze anos, a Lady Gaga é melhor do que o Johann Sebastian, porque a primeira faz parte da vida e da sociedade dela, e sendo assim, para ela faz mais sentido do que um alemão de peruca que viveu sabe-se lá quantos séculos atrás. Eu tinha cansado, sinceramente, de malhar meus neurônios tentando refutar esse tipo de argumento, e tinha deixado pra lá, mas nos poucos textos sobre educação liberal que andei lendo, acho que encontrei uma resposta. Uma resposta, aliás, que vai além da mera discussão de gosto (que seria bem natural acontecer, nesse caso). Não discutamos se é melhor ou pior: só digamos que o Tolstoi tem muito mais a dizer do que o Dan Brown, porque escreveu livros que são lidos e relidos continuamente há dois séculos, sem perder a relevância e a atualidade, e quem garante que Mr. Brown vai sobreviver aos próximos cinco anos? Ou que a Lady Gaga, ou que o MC fulaninho vão sobreviver à próxima voz esganiçada ou à próxima esquisitona de cabelo loiro? Não se trata, ainda, de só ensinar o que é antigo - grandes gênios e grandes obras existem em todas as épocas, em todos os meios -, mas de, conhecendo o que já foi dito e feito em determinado assunto, aprender a analisar e identificar o que é digno de nota, o que realmente diz algo, seja há três séculos, seja nesse ano.

Educação liberal, portanto, não se aplica a todo mundo mesmo, não tem jeito. Só se aplica a quem quer. Embora todo músico seja necessariamente professor em algum ponto da vida, nem sei a que ponto vou chegar a trabalhar com educação. Sei que, de todas as que até agora conheci, essa idéia é a que me atrai mais e completamente, e se algum dia for possível fazer educação liberal no Brasil (aqui os mais pessimistas soltam um "pffff"), é nesse círculo, dentro dessa concepção, que eu quero trabalhar.

Fora que, olhem só:

After four years at Thomas More College, the average student has…
  • Translated over 1,000 lines of Homer, Cicero, or other Classical authors.
  • Read 10,000 pages of the Great Books.
  • Travelled over 8,400 miles to and from Rome, Italy.
  • Visited over 100 baroque churches, Roman architectural sites, Renaissance palazzos, or catacombs.
  • Written a Senior Thesis and presented it to the entire college.
  • Attended 40 academic guest lectures, classical music recitals, or Oxford-style debates.
  • Designed a personal series of tutorials to test academic interests and talents.
  • Defended a controversial proposition in the Junior project and oral examination.
  • Attended (or guiltily skipped) 840 daily Masses on campus.
Oh gee. Por favor, me mandem pra lá.

3 comentários:

Alessandra disse...

Faz pouco tempo, tive uma discussão (de verdade, dessas em que os dois lados ficam um pouco bravos, e totalmente exasperados e indignados com o que o outro disse) com um amigo meu que, apesar de no geral boa pessoa, insiste que o valor de tudo é sempre relativo. As in, preferir as poesias do Jim Morrison a Paraíso Perdido é só questão de gosto, o valor artístico dos dois é o mesmo. NOT. E também sinto falta de lugares assim.

Leonardo disse...

Identifiquei-me por completo. Meu sonho era fazer um curso como esse, por enquanto, tenho me deliciado com o livro Trivium da irmão Miriam Joseph, olha, é um ótimo começo. O livro deu base a um dos sistemas de ensino mais interessantes dos USA. Ah, voltarei...

Henrique Santos disse...

Além dos estudos por conta própria (obrigado a você pela indicação do Thomas More [o currículo do four years é muito bom] e obrigado ao Leonardo pela indicação do Trivium), desde de 2009 faço os cursos do departamento de Humanidades do IICS (http://www.iics.org.br/humanidades.aspx), talvez a única iniciativa do tipo aqui no Brasil.
Cheguei aqui via blog AExpectadora. Pelo pouco que vi estou gostando, parabéns.

Afetuosamente,

Henrique Santos

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