quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Hoje acordei teológica

Andei vendo isso aqui e numa das aulas o professor diz que as razões pelas quais os livros do Novo Testamento se tornaram cânon (além da crença na inspiração divina), foram três:

1) Proximidade de Jesus - os primeiros cristãos queriam ler o que tinha sido escrito por quem estava lá, ou por quem estava perto de quem estava lá.

2) Aceitação geral. Popularidade, simplesmente. Alguns evangelhos eram aceitos melhor do que outros, regionalmente inclusive - os cristãos de Alexandria gostavam mais de um enquanto os de Roma, de outro e por aí vai. Os mais indicados para o cânon, portanto, eram os livros que tinham mais aceitação em um espaço geográfico maior.

3) Aceitação teológica. Sim, aceitação teológica, mesmo antes de haver qualquer consenso doutrinário! O cânon selecionado para ser o Novo Testamento nada mais é do que a lista dos documentos vencedores do debate histórico - mesmo antes dos concílios como o Niceno, que demarcou definitivamente o que era a ortodoxia. Já existiu gente por aí dizendo que o Deus do Antigo Testamento (ou seja, o Deus dos Judeus) não era o mesmo Deus que Cristo pregava, por exemplo. Ao longo dos séculos, essa idéia e muitas outras foram sendo deixadas para trás, e as que pareciam mais apropriadas e coerentes foram sendo selecionadas, até dar no que vemos hoje em qualquer bíblia.

O professor desse curso não revela nem deixa transparecer se pertence ou não a alguma religião. É bem provável que seja ateu, mesmo porque um dos livros-texto da matéria foi escrito por um ateu estudioso da história do Cristianismo. Mas sendo ou não, não importa, porque o que ele quer é dar a visão histórica e não religiosa, do significado que o Novo Testamento teve para os primeiros cristãos (edit: e é óbvio que ter só essa visão é ter só uma visão aleijada, sem nem metade da riqueza de significado e sentido real que a bíblia traz, mas é o que a aula se propõe a apresentar, so let's stick to that for a while.)

Dito isso, meu ponto é:

Eu já ouvi dizerem "A bíblia é um engodo, é só um monte de textos selecionados arbitrariamente por Constantino, que resolveu se converter por politicagem e fazer valer só o que achava que seria conveniente". Essas aulas da Yale, embora não apresentem nenhum ponto religioso (e sim o significado histórico do Novo Testamento para os primeiros cristãos), já me mostraram o contrário. Não foi só um capricho do Constantino, a seleção do cânon. Foram séculos e séculos de pensamento e debate entre cristãos com idéias totalmente diversas! Posso imaginar as mesmas pessoas dizendo "Mas não faz diferença! O que muda é que em vez de ser uma pessoa só, é um grupinho ganhador de debates quem escolhe o que acha melhor e coloca lá. Não há nada divinamente inspirado nisso".

E eu só posso dizer que não consigo entender como esse pode ser um argumento válido. Muita gente se chocaria vendo o professor da Yale dizer que a seleção foi resultado de um longo debate. Pois eu não me choco, pelo simples fato de que nisso vejo um cuidado divino ainda maior, guiando os debates e as opiniões, para que só o que estivesse correto e verdadeiro fosse oficializado. Deus não deixaria que entrasse besteira ou mentira no livro que é pra ser simplesmente nosso guia de vida. É claro que pra quem não acredita n'Ele (ou só não acredita no cristianismo) não adianta nada dizer isso, porque a pessoa não vai enxergar da mesma forma. O que quero dizer é que não entra na minha cabeça acharem que a escolha humana nesse caso é um argumento convincente pra derrubar a fé - não entendo as bocas abertas, os muxoxos de indignação e as risadas espertinhas de alunos que, vendo qualquer professor de História falar de Constantino, acham que desvendaram o mistério da Cristandade, que decifraram uma farsa de dois milênios e tal. "Era tudo combinação, cara, foi o hóme lá que escolheu". Mas ué, o que tem?

Anyway, estou gostando muito dessas aulas. Assisti quatro em uma noite só e já aprendi um monte de coisas sobre o mundo Greco-Romano, a mentalidade da época de Cristo, as idéias que apareciam entre primeiros cristãos... Sem contar o fato de poder assistir aulas de uma das melhores universidades do mundo de shorts do pijama e com os pés pra cima, tomando Coca-Cola e fazendo anotações num caderno no colo. Séculos passados, eu adoro vocês, mas não trocaria isso por nada. God save the internet.

Se algum estudante de teologia ou sabido do assunto por acaso estiver passando por aqui e quiser dizer alguma coisa, vou ficar feliz. Mais legal ainda é ter gente pra conversar sobre tudo isso. E fiquem aí com uma música do Madredeus que não consigo parar de ouvir:

10 comentários:

Anônimo disse...

Well,

eu passei por aqui, como um romeiro e li o que você contou, o que você escreveu, mas não sou estudante de Teologia nem sou sabido no assunto. Não obstante, gostei de ler e de escutar, com você, Madredeus.

Estranhei o seu autoritarismo e um certo positivismo no discurso quando aborda a questão teológica, mas, como lhe disse não entendo nada disso, e acredito que Deus, haja o que houver, ande por aí:

http://www.youtube.com/watch?v=4z1l3Mop0_A

Fernanda disse...

Anônimo,

Autoritarismo? Queria que você explicasse melhor, não entendi. Eu acredito nessas coisas das quais falei, não tem como não soar meio "preto no branco", acho. Mas não tenho a intenção de ser autoritária com ninguém - ou, trocando em miúdos, this is just me, e também não entendo nada do assunto muito profundamente. Só sei coisinhas aqui e ali que vou catando.

Obrigada pelo link do vídeo, gosto muito. E fico feliz que também gostou de ler e escutar. É sempre bem-vindo! :^)

Anônimo disse...

Você não foi autoritária com ninguém, Fernanda, e eu me expressei mal porque não fui claro e fui incerto*. Alguns "ismos" transportam-nos por vezes para lugares não queridos e aquele continha uma insinuação despótica: mas eu pretendi tão somente dizer-lhe que estranhei, dada a sua juventude, a autoridade - a "autorictas" dos romanos - com que você debate a matéria, o domínio que você detém sobre o tema. É surpreendente.

Bom fim-de-semana para você.

(* Parafraseando Luis Fernando Veríssimo: "escrever claro, não é certo, mas é claro, certo?")

Anônimo disse...

Ahhh... Reparei no seu perfil. E como você gosta de "coisas" antigas, deixo-lhe um poema antigo (não aprecio especialmente a Emily Dickinson, mas gosto de Shakespeare)

http://www.youtube.com/watch?v=0tJBX2JgZZQ

e um video com uma atmosfera medieval

http://www.youtube.com/watch?v=Mv0U-iTx6rk

See you soon. Bye.

Vitor Grando disse...

"O que quero dizer é que não entra na minha cabeça acharem que a escolha humana nesse caso é um argumento convincente pra derrubar a fé - não entendo as bocas abertas, os muxoxos de indignação e as risadas espertinhas de alunos que, vendo qualquer professor de História falar de Constantino, acham que desvendaram o mistério da Cristandade, que decifraram uma farsa de dois milênios e tal. "Era tudo combinação, cara, foi o hóme lá que escolheu". Mas ué, o que tem?"

Estudante 1,5 de Teologia num Seminário Brasileiro e compartilho letra por letra de sua opinião acima.

Um abraço!

Vitor Grando disse...

Ah! É sempre um bálsamo ver gente jovem (não que eu não seja um, mas é sempre um consolo a mais) como você que consegue unir a fé cristã com uma bagagem cultural invejável. Parabéns!!!

Fernanda disse...

Anônimo, ufa. Fiquei meio assustada, procurando tom autoritário no texto, mas fico feliz em saber que não é nada disso. Obrigada! E obrigada pelos vídeos também :^)

Vitor, obrigada de novo (comentei no seu blog, veja lá). Bem-vindo também, e abraços!

guilherme disse...

oh, e voltei com o blog...

Fernanda disse...

a-há! \o/

Anônimo disse...

Vocês são adoráveis!
Fernanda, seus pais podem se orgulhar de você.
Anônimo, adoraria lhe conhecer!

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