terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Pelas campinas gentis voam lindas brabuletas

Minha irmã dormiu ouvindo rádio no celular. Uma rádio adolescenta normal, músicas normais - uns pops emocionantezinhos aqui, um reggae sossegado ali, um Capital Inicial acolá. Posso dizer que eu estou gostando? Ouvir rádio assim de madrugada, com todo mundo dormindo, me lembra de quando eu tinha uns 12 anos - ela, 6 - e íamos dormir no quarto dos pais, com o rádio-relógio tocando umas musiquinhas normais também. Também acho rádio mais vivo do que mp3 ou vinil (que são os meios que uso pra ouvir música). É meio bobinho, mas o fato de ter gente envolvida na coisa - é tempo real, eles estão lá - faz com que eu sinta que ainda tenho companhia, que não estou sozinha mesmo que todo mundo esteja fora ou já tenha dormido.

São quase quatro horas e eu estou prestes a escrever um texto de menininha todo piegas sobre nostalgia. Por obséquio, alguém me segure.

(Aqui tinha um parágrafo enorme sobre vinis e uma gravação que eu tenho do Oratório de Natal de Bach, mas devia estar terrivelmente chato, ou sei lá como se traduz terribly dull. É incrível como eu consigo desvirtuar - ou virtuar, porque nada que esteja no quadrivium pode ser assim indigno - todo e qualquer assunto pra música, mesmo estando de férias...)

Mas eu estava pensando esses dias, acho que no banho. É claro que é bom que não se precise sofrer tanto - respirar poluição, andar em lugares como o Anhangabaú -, mas sem um pouco de sofrimento resignado a alma fica fraquinha. Eu digo, deve haver algo de errado com alguém que, não sendo claustrofóbico nem tendo acessos de pânico, morre de horror só por pegar um metrô lotado. É claro que, se eu pudesse, ia de avião particular, mas acho que mesmo os que têm acesso ao pó de pirlimpimpim precisam sofrer um pouquinho - como um monge ou uma bailarina, que ficam mais fortes aprendendo a ignorar a dor e o sofrimento.

É isso mesmo: claro que eu gosto (e defendo o ato) de ficar aqui no meu quarto comendo bolacha ou jogando Sonic, mas há diversas lições de vida que só podem ser aprendidas quando à destra há uma gorda atendente de telemarketing te espremendo com o peitão monstruoso; um negão de dois metros de altura morrendo de cuidados para que você não sucumba ao bíceps a cada freada do metrô (mas não conseguindo tanto, coitado) à sinistra e, ufs, três estudantes de letras modernas, descoladas e independentes (elas, não as letras) conversando e rindo muito alto bem perto da ponta do seu nariz. Há parábolas que só são assimiladas quando se vislumbra o azul-metálico da sombra no olho da gorda. Pra que viagem astral, meu bom mameluco? No metrô, se fores espertinho e souberes fazer a limonada com as laranjas que a vida te dá, aprenderás a ignorar completamente o mundo à sua volta, indo viajar pelo Pacífico num cruzeiro ou andar pelas campinas gentis, em meio às brabuletas*. As pecinhas de Lego do seu caráter são firmemente encaixadas quando você vê algum babac... Digníssimo trabalhador brasileiro olhando para o derrière de uma das universitárias (ou ainda para o seu próprio) e só suspira profundamente, inatingível e livre de qualquer nojinho, enquanto as ouve dizer bem alto o quanto são bonitas e arrasam, amigá. Em verdade e em verdade vos digo: bem-aventurado o homem que puder executar em sua mente a Sexta de Beethoven enquanto o seu próximo dá o play no Bonde da Juju pros truta tudo curtir. A alma deste não conhecerá fraqueza; andará eternamente por prados verdejantes, paciente e inatingível.

É isso, é isso. Começo querendo falar dos meus próprios profundos sentimentos e termino dando lições de vida. Vou imprimir uma cópia desse parágrafo sobre o metrô pra usar de mantra quando voltarem as aulas - se bem que quero tanto que elas voltem!, gorda, estou até com saudades de você - e depois já posso dormir, meio capenga e prometendo a vocês (Ó multidão ávida!) que quando eu voltar pro IA vou ter qualquer coisa melhorzinha pra escrever por aqui. Se bem que, já falei que estou quase terminando Sonic 2? Então...


* Essa frase e o título do post vêm da música que as irmãs da Cinderela cantavam em 05:53 disso aqui:

3 comentários:

Alessandra disse...

...com suas asas gentiiiiiis... verdes, vermelhas e preeeeetaaaaaaaaaaas...

Posso dizer que tive um troço quando li o título desse post? Nunca conheci ninguém na vida que conhecesse isso fora eu e as minhas irmãs. Na minha casa essa música é piada interna. Eu tinha outras histórias também. :-)

"Em verdade e em verdade vos digo: bem-aventurado o homem que puder executar em sua mente a Sexta de Beethoven enquanto o seu próximo dá o play no Bonde da Juju pros truta tudo curtir." Um dia eu chego lá.

Fernanda disse...

Eu achava que eu era a única também! É piada interna aqui em casa também! AH, não estou sozinha no mundo!

E olha, eu consigo escutar uns pedacinhos só, mas depois dá interferência e o bonde da Juju volta... Bom, vamos tentando. Abraços! ^^

nathymabu disse...

onde acho essa historia?

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