sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Hoje estava no site da Casa do Artista olhando os estojos de lápis de cor caros terrivelmente caros que eu sonho em ter, e me veio uma vontade enorme de desenhar. Necessidade física, sensorial mesmo, de ver a ponta do lápis passando pelo papel. Essa última frase quase me fez vomitar porque soou como algum verso daqueles poemas amadores que tentam profundidade sendo brega e irritantemente descritivos, mas é verdade: desenhar, pintar, tocar - às vezes a vontade é mais sensorial do que expressiva ou intelectual. Há um prazer específico em perceber que tal combinação de cores, tal traço mais grosso ou fino ou tal som mais amadeirado ou metálico está sendo produzido por você.

Li esses dias Ernest Gombrich dizer em sua História da Arte, que se perguntamos pra um artista por que tal coisa é bonita ou por que ele faz do jeito que faz, ele não vai saber responder: só vai dizer que parece certo. Por mais que eu goste de Estética, Filosofia da Arte e todas as coisas dessa sorte, às vezes esse it just feels right me é suficiente e muito mais eloqüente do que qualquer coisa que se possa dizer.

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O mesmo Gombrich diz que a arte só passou a servir como expressão pessoal quando não tinha mais nenhum propósito. Os tantos retábulos da idade média podem hoje nos parecer todos iguais, mas neles seus pintores estavam sim expressando individualidade - a mesma individualidade que faz com que o jeito de uma pessoa andar, comer uma maçã ou demonstrar surpresa seja diferente do de outra, embora todas elas pareçam no geral bem iguais.

Acho um tanto obtuso condenar a expressão pessoal e subjetiva como recurso artístico - se o fizesse, desprezaria uma boa parte da arte mais recente que não merece ser assim tratada. Moralmente, entretanto, a idéia de pessoalidade expressada "sem querer" me parece muito mais correta do que esse espírito adolescente que tenta desesperadamente se destacar da multidão o tempo todo.

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Anyway: Aproveitei neste site (thanks to this Mr.) a imagem de alta resolução da Eleanora de Toledo pra tentar reproduzir parte do retrato - com lápis de cor da Faber Castell acumulado de anos e anos de compras escolares minhas e da irmã, não com o estojo da Caran d'Ache (suspiro resignado). Está dando terrivelmente certo, o que penso ser quase um milagre, já que mesmo aumentando muito o zoom é praticamente impossível ver qualquer rastro de pincelada. Escondendo o artifício, o Bronzino. Já eu, veremos como me saio - se continuar bem e todos vocês (ó horda) forem muito bonzinhos, mostro aqui.

2 comentários:

Richard disse...

Don't mention it, missy. The Untalented Mr. Richley, at your service.

Evelyn disse...

Esta idéia da pessoalidade expressada 'sem querer' é bem a definição de 'gênio' daqueles românticos da escola Jena. O artista é considerado o porta-voz do absoluto. E vc já leu "O outono da idéia média"? as descrições do huizinga sobre tarefas desempenhadas pelo artista da 'corte' são muito divertidas - o artista era aquele que tanto pintava quadros quanto fazia pequena reformas no palácio. =)

Legal o blog. =)

Grande abraço

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