quinta-feira, 24 de novembro de 2011

I am large, I contain multitudes

Sempre que alguém escreve "as pessoas" é porque está a falar do mundo inteiro sem incluir a si mesmo, mas eu não vou fazer isso agora. As pessoas têm facetas, milhares delas, e selecionam sempre quais serão mostradas e quais serão deixadas de lado em cada relação (seja de que tipo for). Alguém poderia dizer que o fato de termos muitas "máscaras" faz com que todas elas sejam falsas e a única sinceridade possível só pode ser encontrada por baixo de tudo. Isso pode acontecer às vezes, mas não acho que seja a regra - é preciso, sim, se adaptar um pouco a cada pessoa ou grupo com quem se relaciona, e possível fazer isso sem ser hipócrita. A inteireza de uma pessoa nesse caso acaba sendo representada pela soma de todas as suas máscaras - e se máscara não for um termo bom, o que provavelmente é o caso, chamemos de roupas esses pequenos ajustes que fazemos em diferentes interações sociais, como quem usa calça de moletom pra passear no parque e vestido longo para um jantar de gala.

Algumas pessoas têm mais roupas, outras menos. Algumas conseguem se definir só em três pares bem parecidos de jeans e camisetas, outras têm no mesmo guarda-roupa vestidos artesanais, coturnos e bolsas brilhantes de festa.

As pessoas que têm uma personalidade mais fortemente definida por um grupo pequeno de fatores podem achar contraditórias e até um pouco esquizofrênicas as que têm um número maior de facetas. Todos somos multifacetados, mas uns são mais e outros são menos; os que são mais são capazes de entender uns aos outros com mais totalidade. Numa relação em que João tem mais facetas do que Maria, ela conhecerá muito melhor os Joões que combinam com sua própria personalidade e muito menos os outros que com ela nada têm a ver. É natural que seja assim - João gosta de quartetos de Brahms e samba de gafieira, Maria só de quartetos de Brahms. João com Maria falará mais de concertos do que dos bailes em que vai; sem que seja preciso esconder algo deliberadamente, a parte da personalidade dele que faz com que goste de Brahms será para ela sempre mais aparente do que a parte que faz com que goste de bailes, sendo possível até uma reação de surpresa se ele comentar en passant que ontem dançou com fulana ou sicrana.

Uma boa analogia também pode ser feita com grupos de adolescentes. Há sempre aquele tipo que passeia por diversos grupos sem se definir completamente por nenhum e isso pode ser tanto um belo dum sinal de indiferença e falta de personalidade quanto a atitude de uma pessoa que realmente gosta de coisas diferentes uma da outra; que tem convivendo em si elementos geradores dessas atitudes aparentemente díspares.

Dessa forma é que eu explico o fato de ser cristã tradicional e ainda gostar de heavy metal (como resquício da adolescência, mas nunca se passa a desgostar completamente de certas coisas); de cantar música barroca e gostar de dança de salão. Claro que algumas características sempre serão mais proeminentes do que outras - se eu tivesse amigos de dança de salão eles provavelmente ficariam sabendo da minha paixão por violas da gamba, mas o contrário pode nem sempre acontecer. O que não quer dizer que essas coisas aparentemente conflitantes ou no mínimo contrastantes não estejam todas aqui. Walt Whitman estava certo.

3 comentários:

Ana C. disse...

passando pra deixar um beijo
desejar Luz
e dizer que foi bom passar o ano entre lindas palavras...

Asno de Ouro disse...

Frescor. Aos falantes: http://asinusauri.blogspot.com/

Asno de Ouro disse...

Frescor. Aos falantes: http://asinusauri.blogspot.com/

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