terça-feira, 13 de março de 2012

O dia da mulher já passou, mas

Eu vivo num mundo em que valores tipicamente masculinos são considerados superiores. Todos vivemos nesse mundo - eu, você e sua avó. Eu gostaria que o mundo fosse de outro jeito em muitas coisas, e em muitas coisas que são conseqüências desse fato, mas não no fato em si. Não fico a sonhar com o idílio sabidamente ficcional da ilha coberta pelas brumas e gosto que sejam patriarcais as sociedades - por mim podem continuar assim (ouviram? Eu deixo), mas se você for mulher como sua avó e eu, talvez chegue a um ponto da vida em que algumas questões um tanto difíceis sobre sua condição começam a pulular na cabeça.

Emma Jung dizia o que acabei de dizer: que estamos acostumados a pensar em posturas masculinas como superiores em praticamente todas as situações, e que isso se aplica especialmente a mulheres que já alcançaram "uma determinada conscientização e valoração daquilo que é lógico-racional". Ou seja, todos valorizam a masculinidade, inclusive as mulheres e inclusive nelas mesmas. Ninguém quer assumir uma postura anti-racional; ninguém quer ser acusado de falta de pragmatismo ou raciocínio lógico. Eu mesma não quero essas coisas, e é aí que as caraminholas começam a brotar, porque é muito fácil ser assim sendo um homem e nem tanto sendo uma mulher - ao menos não o tempo todo. Uma vez li alguém dizer que as meninas são ridicularizadas por gostarem de Crepúsculo porque é sentimental e idiota, mas é preciso notar que não é como se os meninos estivessem lendo Schopenhauer e assistindo Ingmar Bergman enquanto elas se identificam com Bella e choram por Edward. O desejo tipicamente feminino de ser arrebatada pelo amor romântico é tido como bobo e irreal; já explodir coisas, matar gente com super armas e destruir prédios com robôs gigantes é só cool. Eu mesma acho isso - mas passei a aceitar melhor as choramingas da minha irmã no cinema. A questão, entretanto, ainda é mais profunda.

A mesma Emma Jung diz também que enquanto o homem ama algo, a mulher ama alguém. Não me esqueço do casal de meia-idade que vi uma vez na Livraria Cultura - ele explorava, mudo, a sessão de filosofia e ela andava de um lado pro outro tagarelando "Jorge, olha aqui, Jorge, não é desse que você gosta?, olha aqui, "filosofia política", Jorge, "história das idéias filosóficas", olha esse outro que eu achei". Tanto minha observação quanto a idéia da Emma Jung são obviamente reduções, mas imagino que em maior ou menor medida seja familiar a todos nós esse tipo de casal - ele é aficcionado por algo, ela é fixada nele. O meu pensamento mesmo foi "meu Deus, ela não tem o que olhar por si mesma ao invés de ficar cocoricando atrás?". Emma diz que o Animus (a porção masculina na mulher) tem como tarefa conseguir a energia para que iniciemos algo nosso - estudos, passatempos, atividades quaisquer -, algum tipo de atividade factual e objetiva correspondente ao espírito masculino representado.

O negócio é que nós, Mulheres De Hoje Em Dia, já temos milhares de atividades desse tipo. Graças à emancipação feminina podemos escolher exatamente o que queremos fazer da vida e todas as atividades antes dominadas por homens foram abertas também a nós (uma das coisas que me inspiraram a escrever esse post foi exatamente o texto de uma mestra em filosofia, publicado dia 8 na Folha). Emma, já vivendo nessa situação, observa que enquanto as mulheres do passado em algum ponto se deparavam com o problema do Animus - ou seja, sentiam necessidade de concretude, disciplina e de uma atitude objetiva -, hoje em dia o caminho para a maioria de nós é essencialmente outro. Crescemos já acostumadas a situações em que atitudes masculinas são o padrão e o problema pode vir pelo outro lado: não saber exatamente o que fazer quando são requeridas posturas mais femininas. Pensem no arquétipo cinematográfico da publicitária Workaholic bem-sucedida e um pouco dura demais com os outros e consigo mesma. Novamente uma redução, mas não vou ficar dizendo que todas essas coisas são reduções, que vocês sabem disso. Outro problema se coloca quando o irracional (o subjetivo, o emotivo) vêm à tona e a mulher não sabe o que fazer, não sabe de onde vieram todas essas coisas e se culpa, não podendo aceitar de si mesma tais irrupções. Ninguém quer ser vista como fraca, passiva e sentimental. E então?

O problema do feminismo a meu ver - ao menos este feminismo de hoje em dia, que conheço mais de perto - é que periga descambar para um "não-generismo", assumindo, com tais pretensões, um caráter mais masculino ainda. Não há quem defenda a fragilidade e a passividade, não há quem a queira fazê-la ser amada - não pelos homens, mas pelas próprias mulheres. Não há quem pense em dar mais valor a profissões tipicamente femininas, ou abordagens femininas em seja que meio for - o negócio é incentivar que haja cada vez mais engenheiras espaciais, abrindo cotas se for necessário. Emma Jung, de novo: "Aprender a valorizar e acentuar os valores femininos é a condição prévia para que nós como nós mesmas possamos resistir ao poderoso princípio masculino em seus dois aspectos, interno e externo, que quando consegue o domínio absoluto ameaça o campo primordialmente próprio da mulher - a área em que ela pode produzir o que tem de mais próprio e melhor -, colocando em perigo sua própria vida". Já tem gente demais usando a pin-up mostrando os músculos e falando de seu poder. Onde está a disposição a se assumir frágil também, sem se sentir culpada? Em assumir sem culpa que mesmo nós que amamos muitas coisas, estudamos e temos muitos interesses, podemos acabar amando mais a alguém do que a tudo isso?

Ontem vi um link para um livro de mulheres sem sutiã (apontando, ai ai, a hipocrisia que é não poderem andar sem camisa) e uma delas tinha nas costas "mulherzinha é o c*ralho". Moças, é inegável que eu lhes deva meu poder de escolha, mas vocês estão começando a fazer isso errado.

9 comentários:

Larissa disse...

That's the point.

Se você disser que uma mulher escreve como um homem, lógico que vai soar machista e ofensivo aos ouvidos feministas - até ao meu soa, ora essa. Mas se você diz o contrário - que uma mulher escreve como uma mulher (não precisa nem acrescentar o "zinha" no final) a feminista vai rebater: "mas peraí... o que você quer dizer com isso?" Quero dizer que ela é uma mulher, ora essa. A existência do masculino e do feminino é inegável, e qualidades inerentes a esses gêneros existem, sim. Julgar distinções não é inferiorizar uma ou outra - é apelar à máxima orkutiana "nem melhor, nem pior, apenas diferente".

Talvez essas diferenças possam ser "meras" construções ao longo dos séculos que foram formando valores extrínsecos (se bem que não acredito muito nisso. Em TODAS as culturas isso está presente. Vênus e Marte no Ocidente, Yin e Yang no Oriente)... Olha, desculpem, mas não posso negar minha própria natureza.

Esses dias, na faculdade, notei o quanto as mulheres reagem emocionalmente a certos argumentos filosóficos (até comentei isso no FS). Elas gritam, riem, movimentam o corpo, são pura emoção. Os homens permanecem parados, utilizando apenas o racional. Na aula de Introdução à Filosofia a professora comentou sobre o "espanto" que a filosofia causa, e uma das alunas comentou o quanto ficou aliviada com essa definição da filosofia - a de que não é puramente racional, mas que envolve emoções também. Olhei em volta e constantei que todas as mulheres concordavam vigorosamente. Nenhum homem se manifestou...

Anônimo disse...

A caretice nunca morre, apenas muda de lugar. Sempre!

Na universidade, estive ligado a um grupo de pesquisa sobre a mulher - assumidamente feminista. Tinha de tudo: antropólogas, sociólogas, cientistas políticas, enfermeiras, historiadoras, operadoras do direito, estudantes universitárias, etc. De tempos em tempos, surgia, galopante, o discurso raivoso, aquele da prescrição e posologia do que era realmente o ser feminino, o receituário que todo mundo conhece.
O feminismo deu uma contribuição histórica para a condição da mulher, mesmo aquele de tipo mais doutrinador (anacrônico para os dias atuais). Isso é fato! Viva as sufragistas! No entanto, um certo feminismo também trouxe seus infortúnios, sua própria caretice, uma forma patrulhadora e engessada de pensar a mulher e as relações de gênero, em última análise.

Particularmente, não gosto de falar numa "natureza feminina", cristalizada, universal, que atravesse todas as mulheres. Prefiro, antes, um feminismo que permita menos doutrinamento e mais espaço para experimentar posições, deslizar por papéis sociais historicamente femininos ou socialmente estranhos à presença da mulher.

Mulheres intelectuais, parideiras, caminhoneiras, mulherzinhas, dona-de-casa, putas, engenheiras, domésticas, pensadoras, etc; mulheres subjetivas, sensíveis, racionais, lógicas, matemáticas; mulheres dengosas, meigas, safadas, vadias e acolhedoras.
Quero um feminismo que induza uma reflexão sobre o devir feminino, um pensamento que discuta as metamorfoses do tornar-se mulher, e jamais ao receituário de uma agenda política caduca e autoritária.

Hugo Gama

Anônimo disse...

Não há nada mais cool do que o Bruce Willis arremessando um carro contra um helicóptero.

Fernanda disse...

Tenho de concordar :^)

Camila da Mata disse...

É esquisito, porque por mais que eu nunca tenha pensado nesses termos (com as características meio que inerentes a cada gênero), me remete na hora a uma discussão que eu tive uns anos atrás (sobre pessoas que tendem a ser mais racionais ou sentimentais).

Oh, memory lane.
(Não sei se digo "ótimo texto" ou se falo obrigado, haha. :)

Alphonse van Worden disse...

Ótimo blog, parabéns.

Ana Maria disse...

Excelente, blog! Virei cliente ;)

Anônimo disse...

Queremos atualizações, d. F'rnanda!

Juliana disse...

Uma coisa me incomodou no texto. Eu também, assim como você, fazemos parte de um grupo a parte na sociedade. Vamos estudar se quisermos, vamos trabalhar, fazer compras e usar nosso dinheiro como quisermos. Mas o feminismo é necessário ainda e muito. Existem ainda hoje milhares de mulheres que sequer sabem que isso existe, que não sabem que tem escolha. Mulheres mantidas em cárcere privado pelos maridos em casa, por cafetões em todo o mundo. Que foram sequestradas única e exclusivamente para isso. Essa "choosey choice" é ridícula, é ofensiva. Eu nunca serei livre enquanto sequer uma mulher no mundo não for. É ofensivo dizer que eu tenho escolha, simplesmente por ser privilegiada em certos aspectos enquanto tantas outras mulheres como eu não tem esse poder.

Postar um comentário