domingo, 17 de fevereiro de 2013

O mais puro óbvio:

Pensando na aplicação da lei da obrigatoriedade do ensino de música nas escolas, o que não consigo deixar de pensar é que talvez coisas como essa - leia-se o Ministério da Cultura dar quase 6 milhões para a turnê da Claudia Leite com o homem do Gangnam Style - acabem por ser perpetuadas pelos próprios professores de música. Já deixei de me aborrecer com muita coisa que me enervava nos primeiros anos de faculdade e até acredito um pouco mais no que os professores dizem, mas incomoda-me a contradição que é falar tanto de educação como ato político e ao mesmo tempo não perceber que certas coisas não pedem outra coisa que um posicionamento definido. O discurso todo da aceitação do repertório do aluno não é em si mau, mas acaba levando a coisas aberrantes como duas professoras conversando entre si, comentando que os alunos gostam de x ou y (sendo x e y grupos de música famosos na mídia) e que é isso que vão utilizar nas aulas. Esse tipo de aceitação pode ser útil inicialmente e mesmo parecer bom quando levado além, como princípio, mas pra mim não faz nada mais do que mascarar uma condescendência castradora e limitadora de horizontes. Se alguém que pra si próprio tem Mozart, Cartola ou Elomar permite que seus alunos fiquem só com axé e música sertaneja que nem são axé nem música sertaneja de verdade, o que consigo ver é no mínimo esquizofrenia, no máximo egoísmo. Perde-se assim o direito de reclamar de qualquer falta de idéia do que seja cultura da parte de qualquer ministério ou governo. Se não se define o que precisa ser preservado e passado para frente e o que faz melhor em desaparecer, as coisas tomam por si só o seu próprio rumo (que no nosso caso, é o rumo da mídia de massa). 

Não chego, como alguns, a dizer que x ou y não sejam música. São música da mesma forma que J.S. e C.P.E., o que não quer dizer que entre eles não haja diferenças - chego a me sentir chata tendo de dizer isso, mas qualquer um que conheça minimamente o mundo das licenciaturas em música sabe que é necessário. Luigi Pareyson, que foi professor de Umberto Eco, diria que nem sempre existem rupturas bem definidas entre arte e não-arte - acontece de uma obra ter em si mais arte do que outra, e acho que esse pensamento pode ajudar a dissipar a confusão de problemas estéticos que existe nos cursos de música; problemas esses que por sua dificuldade são logo de início abandonados para dar lugar a uma aceitação indiscriminada de qualquer coisa em nome do combate ao preconceito, a uma falta do mínimo pensamento crítico, a um enorme dar de ombros e dizer tanto faz. Não é possível permanecer assim em música, entretanto, e embora seja possível usar a música de Luan Santana tanto quanto a de Vivaldi ou Luiz Gonzaga pra ensinar parâmetros básicos como ritmo ou melodia, a educação permanece deficiente no sentido de não acrescentar nada em termos de repertório - é como se tanto fizesse que nos alfabetizassem com Julia e Sabrina ou Machado de Assis e Dumas, porque todos têm letras e sílabas de qualquer forma. Perdoem-me os enormes corações de mãe, mas enquanto não assumirem que é preciso escolher de forma bem clara o que preservar, os programas de auditório escolherão por nós - e o Ministério da Cultura estará com eles.

3 comentários:

Talita L. disse...

Texto excelente!

E, que legal que voltou a postar com um pouco mais de frequência, Ferzita!

Fernanda disse...

Oi, Talita! Bem, a gente tenta :^)
Obrigada e um beijo!

Júlio C. S. Bueno disse...

É como dizem, poucos sobem o morro para levar ao povo Bach, Balzac ou Descartes. A tendência é sempre querer dar ao povo aquilo que ele já tem e pode conseguir sozinho

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