terça-feira, 10 de março de 2009

Clarissa ouvia em seu quarto a mais antiga canção de amor conhecida em língua inglesa. No vidro da janela, o céu quieto das três da manhã e as luzes amarelas da cidade. Sempre fora fascinada pelas luzes mais distantes, que piscavam pequeninas e davam a impressão de que aquele lugar lá longe, seja qual fosse, era um lugar melhor. Se lembrava de sentir a mesma coisa quando criança, no Natal (as luzes estavam em todo lugar, e todo lugar parecia melhor).

A quietude quase atemporal da madrugada, o céu escuro e as luzes amarelas provocavam-na a sensação de que havia algo maior por trás de tudo aquilo - algo muito maior, terrível e maravilhoso que ela não sabia bem definir o que era, só podia sentir. Parecia que sua própria mente não tinha espaço suficiente pra tal magnitude, pra essa coisa que era grande demais pra ela compreender. Ou mesmo suportar, tão pequena que era.


(Ainda mais tarde, pensando, conseguiu imaginar o porquê de as pessoas na bíblia se prostrarem, cobrirem o rosto e até se esconderem, quando Deus aparecia ou falava face a face com elas)

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