quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Não é no auge de nossos transportes, quando nos ferve o sangue nas veias, que somos mais capazes de encontrar o tom que comove e persuade


Todos os escribas irão morrer, mas
o tempo conservará o que suas mãos traçaram;
não escrevas com tua letra, portanto, nada
que no Juízo Final não te traga alegrias

(48ª noite das Histórias das Mil e uma noites)


Diz Montaigne ser dos que menos sentem tristeza, e que embora os homens no geral a estimem, ele mesmo não a aprecia nem valoriza. Se é verdade que ando encontrando ressonância em não poucos trechos do primeiro livro de Ensaios (que, numa ânsia repentina pelo frescor de tudo o que não é teoria, resolvi ler), não posso dizer que o início de "Da Tristeza" seja um desses - a melancolia é aqui, pelo contrário, uma disposição de espírito que vem de tempos em tempos e em diversas formas, algumas das quais chego, sim, a estimar (outras não). 

Desde sempre são duas as coisas que me impelem, mais forte e longamente do que as outras, a escrever: da primeira dizia aqui em cima; a segunda é a ânsia pelo futuro. É curioso que logo no ensaio seguinte Montaigne fale dessa, lembrando inclusive o que dizia Sêneca sobre os espíritos preocupados com o futuro (isso é, que são infelizes). Não creio chegar a tanto, já que nem só de preocupação são feitas minhas ansiedades - o planejamento e a expectativa têm seus sabores.

O que percebo de tudo isso (e que já vinha percebendo há uns poucos anos) é que não consigo escrever nem dizer direito sobre as grandes felicidades - aquelas felicidades completas, que não vêm matizadas por nenhum pontinho de melancolia sequer. De tristezas ou tristezinhas e esperanças sim, mas as alegrias sempre parecem mais difíceis, talvez não por algo como herança espiritual romântica ou coisa do tipo (sabe-se lá o que se passa com minhas próprias motivações), mas pela própria natureza da qual todas elas me têm parecido, até hoje, pertencer: a do indizível.

Montaigne fala do pintor antigo que, tendo de representar o sofrimento do pai de Ifigênia com o sacrifício da filha, não conseguia dar-lhe um aspecto condizente com o tamanho de sua dor, e acabou por pintá-lo com a face oculta. No final fala da paixão dos amantes (aqui cabe lembrar o sentido antigo de "paixão", que é antes de tudo passagem ou movimento da alma - e um movimento não muito sadio, quando tem a ver com romance); lembra de Catulo, engrolado e anuviado ao ver sua Lésbia, e de Petrarca: "Quem pode dizer a que ponto arde, arde bem pouco". 

O que acontece, no final das contas, é que resolvi inverter todo o nexo do ensaio e dizer que, depois de ler tantas crônicas de tristezas inexprimíveis, percebi que sempre sei dizer a que ponto ardem as minhas (não fosse assim, não iria, desde que me entendo por gente, escrever sobre elas), e vi o quanto há nisso de bênção. "A paixão que se deixa saborear e digerir mal merece ser nomeada", diz o Montaigne, corroborado pelo Sêneca (sempre o Sêneca): "Os prazeres leves são loquazes, as grandes paixões silenciosas". 

Sempre me arrependia um pouco de choramingar nos diários, quando os tinha, por sentir que não devia registrar coisas ruins. Quis agora descrever toda a felicidade profunda e constante que tenho na vida, a despeito dos percalços que todos encontramos, e lamentei não conseguir nada que parecesse suficiente. Pensando um pouco melhor, entretanto, é possível que dizer sobre minhas tristezas quase que invariavelmente loquazes me traga no Juízo Final, justamente pelo contraste entre a pequeneza do que pode ser dito e a grandeza do que não pode, mais alegrias do que havia pensado.

Um comentário:

Talita L. disse...

É sempre muito prazeroso de ler o que você escreve, F. E só reafirmo o que te disse sobre a alma agora pouco.

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