sábado, 18 de dezembro de 2010

Da Superioridade dos Primitivos Flamengos sobre os Renascentistas Italianos

(Palestra ministrada em um curso de verão aos alunos da Universidade Federal de Itumbiara, pela Profª Jeanne La Pucelle, titular da cadeira de História da Arte da Universidade de Collonge-en-Charollais, França)


Venho trocando, ao longo de toda minha vida acadêmica, mui frutíferas epístolas com Oleg Pietrovich, Catedrático na Universidade de Vyborg. Após todos estes anos de doutos argumentos e amigáveis discussões, chegamos afinal a uma conclusão, que será apresentada aos senhores no decorrer de minha palestra. Peço-lhes, entretanto, que mantenham a fleuma e a dignidade, fazendo o possível para permanecerem assentados em suas poltronas, pois é algo bombástico o que tenho a lhes comunicar. Ministrei este curso semana passada na Universidade de Tarragona e tendo mal pronunciado a última sílaba de "Muito obrigado", metade da platéia invadiu efusivamente o palco, gritando salves ao meu nome e colocando-me aos ombros para irmos em cortejo pela cidade. A outra metade vi passar enfurecida quebrando vidros e atirando carros - inclusive o meu - ao Rio Ebro, onde também fui amorosamente atirada pela turba favorável, podendo assim voltar para o hotel com muito mais facilidade.

Tendo advertido sobre os estranhos efeitos que minhas palavras podem causar, prossigo. É sabido que os Italianos sempre gostaram de alegar superioridade artística sobre o resto da europa - lembremo-nos de Petrarca, mui orgulhoso de seu século, chamando de "Idade das Trevas" todo o passado. O Renascimento Italiano é tido comumente como acontecimento central da História da Arte, e vêm-nos professorecos aos montes falar de Giotto, Michelangelo e Leonardo com o mesmo tom com que falam de canto lírico, vinho ou lasanha - hábeis prestidigitadores como Giorgio Vasari puxando o saco de Cosimo de Medici. Por tal supervalorização, são fadados ao esquecimento Mestres, meus egrégios colegas e alunos, Mestres cujo brilho e genialidade muito ultrapassa a repetição infindável de temas mitológicos e corpos nus deformados que temos de engolir quadro após quadro, afresco após afresco.

Peço licença para, com exemplos visuais, demonstrar melhor meu raciocínio - sempre dando o devido crédito a Pietrovich, sem cuja argúcia e olhar certeiro eu não poderia ter chegado na metade de meu trabalho atual. No primeiro slide temos a Anunciação executada por Leonardo nos anos 1470.



Acompanhem o meu laser - podemos contar, cá ao fundo, exatamente quatro ciprestes idênticos. Quatro, vejam cá, um-dois, três aqui, quatro. Os lírios da mãe de Nosso Senhor escondidos, abafados por um monte de mato desgrenhado. Vejam os caros que não digo, absolutamente, que é um mau quadro. Trata-se de uma bela paisagem campestre, porém idílica e sem vida real, trazendo a impressão de se passar em uma dimensão outra qualquer. Posso - e não só posso como pretendo e vou - mostrar-lhes algo que relegará Da Vinci à polimatia e às engenhocas. Acompanhem o Slide 2:



Van Eyck, meus caros. Posso ver daqui algumas expressões espantadas, assustadas com a extensão da própria ignorância - pois repitam comigo: Jan-Van-Eyck. Peço-lhes que fixem a atenção nos quadros centrais do retábulo, que mostram a cena da Anunciação na casa de Maria. Prestem atenção nas janelas, na vida que tem o mundo exterior: as andorinhas voando entre os prédios - como é em Brugges até hoje -, os motivos do pavimento da praça.


Ou a bacia de cobre encostada num nicho da parede:


Citaria ainda muitos outros detalhes mais: a bíblia perto de Maria, os livros na estante. A arte dos primitivos Flamengos, queridos Itumbiarenses, é uma arte de detalhes. A do Renascimento Italiano é uma arte simples no sentido de ter só uma mensagem, o que reflete tanto sua origem Bizantina como a influência consciente da arte Antiga. Explico: em Da Vinci vemos apenas o anjo dando as boas novas à virgem Maria em um cenário que não faz mais do que ser plano de fundo - um belo plano de fundo, mas ainda um. Em Van Eyck a história religiosa principal vem acompanhada de pintura de gênero e cenários urbanos, por exemplo. Isto confere aos quadros uma humanidade e profundidade que não se vê nos nossos queridos comedores de macarrão.
Ao segundo exemplo, agora.
Uma Madona com o menino Jesus no colo. Suponho que desta conhecem o pintor, mas para não ser inconveniente aos pobres uns que acabaram de se botar desesperados pela idéia de que eu poderia terminar a palestra sem iluminá-los dizendo quem é o Urbinate que pintou este quadro - ou, agora, o que diabos afinal é um Urbinate -, comunico-vos que esta é uma Madona de Rafael. Mui bela, não acham? Belos traços, belos cachos nos cabelos louros. O bebê é um tanto fiel a um bebê real. As expressões trazem leveza e calmaria.
Atentem agora - e segurem-se - para este que lhes vou mostrar:


Disse para que se preparassem porque este vai ser ainda mais difícil de falar. Vamos comigo: Geertgen tot sin Jans, ou Geraldinho para São João - boa alcunha para os Geraldos do auditório, se algum houver. Ah sim, você - pode pedir que te chamem de Geertgen de agora em diante, hm? Pois bem, ser nosso Geraldo um pobre desconhecido é a razão primeira de estar eu cá falando a vocês aí. Pouco se sabe da vida do tal, então pulemos para o que interessa: o quadro. Os mais espertinhos podem estar estranhando esta velha maluca, que acabou de falar do naturalismo e da realidade das pinturas flamengas, mostrar agora uma que de realista não tem nada. Os neerlandeses, meus amados espertinhos, sabem mandar para as cucuias o realismo quando lhes apetece. Este é um quadro carregado de conteúdo teológico - o menino Jesus, desenhado de forma bem simples, não tem todas as formas de um bebê real. Traz nas mãos, entretanto, pequenos sinos, que toca com os anjos ao redor. Quão cheio de significado é isso? Quão cheio de significado, Geraldo? Mostra ao mesmo tempo a inocência infantil, que brinca com o som dos sinos, e a glória do filho de Deus, para quem tocam os anjos mil instrumentos. Ao mesmo tempo, no mesmo quadro o puer natus in Bethlehem e o Sanctus Israel. Também a Madona, pintada como mulher do Apocalipse, com a coroa com estrelas, a lua e os pés sob a serpente. É bela a Maria de cachos louros, mas não há lá metade da densidade que aqui se encontra.
Poderia presentear os muitos olhos e intelectos cá presentes com diversos outros exemplos, mas o tempo urge - percebam que o Sr. vosso Diretor já esteve por duas vezes a me passar um papelzinho cheio de impropérios e desejos de que o céu caia sobre minha cabeça caso demore eu os mais cinco minutos dos quais sempre se precisa em palestras - e teremos de encerrar por aqui. Espero que com estes breves exemplos e comentários tenha conseguido provar de uma vez por todas a inferioridade artística desta empulhação mediterrânea, convidando-os a deixar, comigo, aos Italianos da Renascença a seguinte mensagem: os Pré-Rafaelitas não gostavam de Rafael e nós não gostamos de vocês. Muito obrigada.

10 comentários:

Thiago Cardoso disse...

Nesse momento taco tomates, ervinhas, manjericão e coentro em Jeanne La Pucelle. Depois atiro asas de anjinhos rafaélicos em seu corpo e começo a gritar pelo meu ingresso, - devolvam o dinheiro, essas peça fala mal da carcamanada.

(mas, falando sério: bellissimo post. num concordo, mas you've got a point)

sobre os detalhes de van eick, (...), aquele cachorrinho dos Arnolfini é maior do que a pintura contemporêna somada.


ps: as dobrinhas dum bebê rafaélico são maiores do que os et's flamengos.

Fernanda disse...

La Pucelle é uma velhinha muito forte. Diz-se que quando foi jogada no Ebro ficou nadando sozinha uns cinco minutos até encontrar o brinco de pressão que tinha perdido na queda.

Pedro Barreto disse...

Eu achei muito interessante a forma de abordagem, no bom modo jocoso da srta. Fernanda. A tese, ao meu ver, é que há uma preferência pelas obras de arte que possuem, além do mero teor estético imediato (per se), uma clara referência (e desenvolvimento) dos temas que querem representar. Mesmo que nisso haja uma certa "distorção" do que seria a beleza feminina e na representação do bebê, como na Nossa Senhora representada pelo holandês de nome difícil. (Distorção é uma palavra mal colocada, já que daria conotação de inferioridade, que não é o caso).

Refinado teor estético, esteta Fernanda Vaz. Fortalecestes meu modo estético pré-teórico. (doudo).

Do seu amigo jurisconsulto, Pedro.

Zé Luis disse...

Não concordo pois creio que erraste no mérito, isto é, não se trata de competição, "To emulate—but there is no competition— / There is only the fight to recover what has been lost" (Eliot, East Cocker) mas de mútua influência dialogante. Leonardo, por exemplo, pode ter adivinhado via o tríptico Portinari que desembarcou quase na mesma data que ele acabou a Anunciação como resolver a mera pittura di faccia, coisa que ele, no meu entender, faz, ou deixa insinuado, já que a obra é inacabada, na Adoração. E como explicar com os teus critério o realismo de Ghirlandaio e sua estupenda Via Mariae ali na Santa Maria Novella? Não te jogaria no Ebro mas te convidaria para lavar panos no Arno e ver que ao contrário do teu reducionismo, há muitas Renascenças.

PS - Mas os céus são testemunhas do quanto amo os pintores do Norte. Todo fiorentino quer ser também um bom holandês.

Richard disse...

L'érudit italien Dr. Ricardo Ricci se lève avec un regard indigné sur son visage et laisse tomber son monocle.

Mlle. La Pucelle, dit-il, je dois vous dire, vous avez allumé une bougie sur l'autel de la polémique.

Vous pouvez présenter vos préférences avec votre sophistication, ma chère, mais la vérité reste que notre Leonardo est un homme fait pour durer des milliers d'années, contrairement à votre van Eyck - un beau peintre, bien sûr, mais en aucun cas un vrai homme de la Renaissance.

Je vous laisse, mademoiselle, pour réfléchir sur l'orgueil de vos déclarations.

Il part avec son parapluie dans son poing et frappe des mécréants à la sortie.

Thiago Cardoso disse...

Alguém acerte essa bicha francófona com uma rajada de sal grosso.

Fernanda disse...

Mon bon mamelouk, vous être dans une université de famille, alors rafraîchissez votre tempérament et cessez de jeter des choses sur les gens.

Oleg Petrovich disse...

(avec un prononcé accent russe) Il est vrai que van Eyck n'est pas un homme de la Renaissance, bien pour lui de n'être pas de ce genre de neo païen, superficiel imitateur de l'antiquité classique, ignorant des richesses de la culture medievale. C'est principalement pour ça la supériorité des primitifs flamands sur les italiens, au contraire d'eux, ils ne restent pas sur l'imitation servile d'un style qu'ils ne comprennent pas. Madame Pucelle a bien démontré la supériorité spirituelle des flamands sur les italiens.

Richard disse...

Mon cher monsieur Petrovich,

Vous avez bien raison quant à la qualité derivée des oeuvres italiennes de la Renaissance. Peut-être la superioté spirituelle des Flamands soit vraiment un fait negligé pour l'histoire. On doit néanmoins être d'accord sur la grandeur polymathique des hommes de la Renaissance italienne, laquelle les Flamands mêmes ne pourront pas nier.

Gustavo disse...

Passei um mês meio que sem ler blogs e olha o que encontro quando volto. Excelente. :^)

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