quarta-feira, 4 de março de 2015

Fugge il verno dei dolori

O basso di ciaccona e os timbres dos instrumentos antigos me dão uma noção quase palpável do que deve ser a eternidade (sim, eu de novo com essa da eternidade). Há coisas tão puras e bonitas na música que não entendo como podem ser finitas e por isso não posso evitar crer que devem perdurar, de alguma forma.

(quando John Updike diz "the ceasing of your own brand of magic", isso explica um pouco esse espírito, embora fale de outro aspecto da mesma coisa que quero dizer aqui)

Não entendo como viver olhando para tudo com sarcasmo o tempo todo. Que é o sarcasmo frente à viola da gamba, frente à pureza da ressonância de uma voz humana? Que é o dinheiro?

Gostaria de poder viver proporcionando às pessoas uma experiência verdadeira e recheada de significado, porque frente a algo verdadeiro não há fetiche que sobreviva. Não há discurso empolado ou mera tecnicalidade que subsista.

Uma das melhores coisas de ter escolhido a música é que, apesar do que possa surgir, temos a liberdade e a segurança para preservar e defender a beleza contra as investidas da liquidez e do caos destruidor (e digo a beleza de todos os tipos - a beleza do que é feio, também). Pensei hoje de manhã que nas outras artes isso já não é mais tão possível e hoje um colega disse que acha que a música é a arte mais verdadeira porque as artes plásticas são ou estão "cheias de artifício" de um jeito ruim. 

Há no mundo muito mais do que eu possa pensar em conhecer, mas as coisas do Velho Mundo permanecem ressoando no meu coração de um jeito singular, quase como o que a Itália, especificamente, representava para Goethe (já notaram que todos os lugares relacionados à Itália - sejam vendinhas, restaurantes, escolas ou centros culturais - todos eles têm uma certa brisa e uma certa coisa agradável?).

Nunca tive desprezo pelos rigores da common practice era, mas talvez a minha história familiar com a música popular tenha emergido, sem que eu percebesse, no meu amor pela música de um tempo onde as coisas não eram tão fragmentadas assim. 

Eu sinto saudade de muita coisa, a vida inteira. Já em criança sentia.

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